A 16 de Outubro passado, publicou-se um texto atribuído a Gabriel Garcia Marquez.
Pelas dúvidas quanto à autoria, e na impossibilidade de confirmar a veracidade do mesmo, pedi ajuda à comunidade. Um contributo importante chegou agora da Cecília que nos enviou este texto que aqui reproduzimos.
O texto polémico pode ser lido e escutado aqui. De qualquer maneira reafirmo que continuo a gostar desta apresentação. Acho-a bem conseguida independentemente do texto original não pertencer a G. G. Marquez. Só é pena as confusões à volta do nome (inclusive da vida e saúde) do grande escritor.
Segue opinião de Betty Vidigal publicada em jornal da UBE
Vivir para negarlo
Betty Vidigal
Onde se reitera a não-autoria de Marionetes por Gabriel Garcia Marquez, revela-se quem é o autor desse texto e procura-se desvendar as razões da confusão.
Qualquer pessoa que tenha intimidade com literatura percebe, ao primeiro relance, que Gabriel Garcia Marquez não escreveria algo como Marionetes.
E, hoje, até mesmo quem achou o “poema” lindo e o divulgou como sendo de autoria do Nobel de 1982 já reconhece que ele não o escreveu: afinal, ele mesmo negou publicamente ter escrito um texto “tán malo”. (Usei aspas em “poema” porque o texto não pode, em nenhuma hipótese, ser considerado um poema: trata-se de prosa. No entanto, percorreu a net como sendo o “poema de despedida de Gabriel Garcia Marquez”.) Que razões teria Gabo para se “despedir”?
Em 24 de junho de 1999, ele se internara em uma clínica de Bogotá, queixando-se de intenso cansaço. Em 13 de setembro, recebeu de médicos de Los Angeles o diagnóstico de um câncer linfático. O tratamento começou imediatamente e poucas semanas depois anunciava-se que a saúde do autor de Cem Anos de Solidão havia melhorado. No entanto, em 29 de maio de 2000, o jornal peruano La Republica publicou La Marioneta como sendo “um poema de despedida que Garcia Marquez enviou a seus amigos mais próximos, devido ao agravamento de sua doença.” (Será que não sabiam que esse texto já corria a internet desde julho de 1999, em sites de auto-ajuda, como se fosse “uma colaboração de Garcia Marquez a um programa de menores maltratados”? E que, já nesse tempo, apontava-se a incongruência com o estilo elegante do escritor colombiano?)
Em 30 de maio, todos os jornais do México reproduziam a notícia do La Republica. O La Crónica dizia, em manchete: “Gabriel Garcia Marquez canta uma canção para a vida”. Era um poema sentimental, cheio de lugares-comuns. Ei-lo, na íntegra, em tradução:
Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de pano e me desse um pedaço de vida, talvez eu não dissesse tudo que penso, mas com certeza pensaria tudo que digo. / Daria valor às coisas não pelo que custam, mas pelo que significam. / Dormiria pouco e sonharia mais, por que para cada minuto em que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz. / Andaria quando os outros param, despertaria quando os outros dormem, ouviria quando os outros falam, e como aproveitaria um sorvete de chocolate...! / Se Deus me desse um pedaço de vida, eu me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços sob o sol, deixando a descoberto não somente meu corpo, mas minha alma. / Meu Deus, se eu tivesse um coração... escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que saísse o sol. / Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Benedetti, uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. / Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir o perfume de seus espinhos e o beijo encarnado de suas pétalas... / Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas que amo que as amo. / Convenceria cada mulher de que ela é a minha favorita e viveria apaixonado pelo amor. / Aos homens eu provaria quão equivocados estão em pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. / A um menino eu daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinho. / Aos velhos, os meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. // Tantas coisas aprendi com vocês, homens...! / Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está em se escalar a encosta. / Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo do pai, ele o tem preso a si para sempre. / Aprendi que um homem só tem direito de olhar de cima a outro homem quando for ajudá-lo a levantar-se. // São tantas as coisas que aprendi de você! s. Mas não terão muita serventia, porque quando me guardarem dentro desta maleta, infelizmente, estarei morrendo...”
Os negritos acima são meus. Assinalei estes trechos porque, quando se sabe quem escreveu o texto e com que finalidade, eles passam a fazer sentido, dentro desse vademecum. O original está, claro, em espanhol . Há muitas traduções para o português, com pequenas diferenças entre elas. O texto é encontrado na internet em todas as línguas (prémios Nobel têm prestígio em toda parte).
Inicialmente, o autor de Cem anos de Solidão – que desde 1975 vive no México, em um casarão antigo restaurado por ele mesmo, mas estava em Los Angeles naquele momento – não se deu ao trabalho de negar a autoria. Disse a amigos que o texto era tão ruim (ainda que possa parecer admirável para algumas pessoas) que não valia a pena perder tempo com isso. Naquela mesma semana outro texto, este de fato escrito por ele, sobre o náufrago cubano Elian Gonzáles, foi publicado em vários jornais com o título Shipwreck on Dry Land .
Em 31 de maio, porém, ao ver como se espalhava a crença de que ele de fato escrevera La Marioneta e estaria à beira da morte, Garcia Marquez declarou: “Lo que realmente me puede matar es la vergüenza de que alguién me crea capaz de haber escrito un texto tan cursi , tán malo”, afirmação que foi reproduzida pelos meios de comunicação de todo o mundo. Quando leu o comentário de Marquez de que jamais escreveria algo tão ruim, o verdadeiro autor, o ventríloquo Johnny Welch, veio a público declarando-se magoado: “A mí me duele profundamente que el señor Garcia Marquez diga que él no se atrevería a escribir una cosa tan cursi, pero respeto su opinión. Yo no soy un letrado o una persona que haya estudiado Filosofía y Letras, soy un ser humano con la necesidad de comunicar lo que siente y lo hago con el corazón", disse ao jornal mexicano Reforma em 1º de junho de 2000. (Observem: toda vez que alguém diz algo como “apenas escrevo, com muita sinceridade, tudo que me vai n’alma”, trata-se de péssima literatura. Grandes escritores não escrevem “o que sentem”. Fernando Pessoa nos conta: “Dizem que finjo ou minto/ tudo que escrevo. Não. / Eu simplesmente sinto / com a imaginação. Não uso o coração.” ) Johnny Welch escreveu Marionetes para ser declamado, em shows, por seu títere Mofles. Quando se sabe disso, tudo se encaixa. Afinal, nenhum ser humano do sexo masculino teria motivos para dizer “aprendi tanto com vocês, homens...”. Já um boneco pode perfeitamente dizer isso. E, quando declara que vai ser guardado dentro de uma maleta – ora, onde mais você guardaria um boneco, se fosse ventríloquo? Claro que leitores inclinados a acreditar que se tratava de um poema-testamento interpretaram a “maleta” como um esquife.
Welch vive no México, onde tem certa fama. Isso de fama é coisa muito variável, localizada e regional. Enquanto o site americano Museum of Hoaxes se refere a “the obscure Mexican ventriloquist named Johnny Welch”, outro site, desta vez mexicano, intitulado “Famosos”, diz que “actualmente o ventríloquo Internacional Johnny Welch está em incursão pelo mundo da literatura promovendo suas duas obras mais recentes”. As obras em questão são dois livros, Lo que Me ha Enseñado la Vida e Hilos de Vida (suponho que os “fios de vida” sejam os que controlam os movimentos das marionetes...).
O texto aqui focalizado está no primeiro destes livros e tem o título de Si yo tuviera vida . A frase “Lo dice uma marioneta de trapo:” introduz o monólogo acima, chamado de “poema” por quem o divulgou.
Ainda em 1º de junho – três dias depois de ter divulgado a falsa notícia inicial – La Republica publicou a seguinte nota: “Quem não merece a brincadeira de que foi vítima é Gabriel Garcia Marquez. O texto que apareceu neste diário na última segunda-feira, na coluna de Mirko Lauer, é apócrifo. Garcia Marquez tem seu câncer sob controle e nada previsível ameaça sua vida. Isto está confirmado. O texto publicado na segunda-feira foi enviado a Lauer pelo escritor Abel Posse, embaixador da Argentina no Peru, que o recebeu de amigos. Muitas vezes, insidiosamente, meteram-se com a vida de Garcia Marquez. Agora querem meter-se com sua morte.”
Destrinçando-se a confusão, soube-se que Abel Posse recebeu o texto por e-mail da escritora Elizabeth Burgos, radicada em Paris. Ela, por sua vez, recebeu-o de Rosário Sousa, a quem não conhece. O e-mail tinha partido da Bélgica. Rosário Sousa, ao receber o “poema”, enviado por Donato di Santo, da Itália, enviou-o a 17 pessoas, entre as quais estava o presidente do Chile, Ricardo Lagos. Antes de La Republica desmentir o que publicara, o jornal mexicano La Jornada tinha procurado confirmar a autoria de Marionetes. A secretária de Garcia Marquez respondeu apenas: “El señor no escribe poemas.”
A nota de correcção no La Republica chegou tarde. Jornais do mundo inteiro já tinham reproduzido La Marioneta, com a informação de que se tratava de um “poema de despedida” de Garcia Marquez . Como recolher todas as penas? Embora esteja até mesmo em alguns sites de humor (acompanhado da advertência de que “nem tudo na vida é piada, leia esta reflexão do grande escritor colombiano, etc...”), a distribuição via e-mail é que foi responsável pela ampla divulgação do texto. Em geral, em forma de arquivos Power Point, com as inevitáveis ilustrações de flores, corações e quejandos, sempre explicando tratar-se de uma despedida “emocionada” enviada por Gabo a seus amigos mais próximos, por estar às portas de morte.
São evidentes as semelhanças entre este texto e aquele outro que foi apocrifamente atribuído a Borges, Instantes (o primeiro apócrifo a ser focalizado nesta série de artigos). Ambos falam em escalar montanhas e tomar sorvete, em dormir mais tarde ou dormir menos e, genericamente, falam no que se faria e não se fez durante a vida. Ambos, provavelmente, agradam ao mesmo tipo de leitor. Segundo o site http://www.artistasmexicanos.com, Johnny Welch é licenciado em Direito, com especialização em Criminologia e criador de mais de vinte personagens. Este site diz que Don Mofles é um personagem “engraçado, de grande frescor e originalidade”. Mas, segundo o site peruano Vivências Literárias , é “um boneco que representa um velho malicioso que faz piadas pesadas”. O mesmo site Artistas Mexicanos diz: “considerado nos Estados Unidos como um dos ventríloquos mais importantes de fala hispânica, Johnny Welch recebeu em Cincinati o Distant Voice Award, prémio mundial outorgado à sua habilidade e originalidade”. Depois que todo esse imbróglio se desenrolou, Joaquim Lopez Doriga, o principal âncora da Televisa, do México, reuniu Garcia Marquez e Johnny Welch, acompanhado do boneco Mofles. Depois de passar o vídeo em que Gabo diz que não escreveria nada tão ruim, Doriga mostra o escritor dizendo a Johnny Welch que o poema é muito bonito, mas muito diferente de seu estilo. Posts em grupos de discussão dizem que Garcia Marquez temia um processo por parte do ventríloquo, que alega ter vendido 20 mil exemplares do livro. Acredito que, pelo contrário, uma natural delicadeza de sentimentos o tenha levado a ser complacente.
O jornal Reforma de 7 de junho de 2001 relata que “Gabriel Garcia Marquez visitou na terça-feira o ventríloquo Johnny Welch em sua casa em Lomas de Virreyes por aproximadamente uma hora, desculpou-se pelo que disse do poema e se deixou fotografar com o Mofles” .
Outro texto apócrifo circula na rede, atribuído a Gabriel Garcia Marquez. Trata-se de uma “Carta a Bush”, sobre o atentado de 11 de setembro de 2001, nos EUA. O jornal equatoriano El Comercio diz, em 21 de fevereiro de 2003, que a agente do escritor, Carmen Balcells, que vive em Barcelona, na Espanha, e é responsável pela publicação de sua obra, nega enfaticamente que ele tenha escrito essa carta e ressalta que tudo que ele escreve passa por ela e nada é divulgado sem que ela leia antes – muito menos pela internet .
Encerremos este artigo com uma declaração de Gabriel Garcia Marquez, sim, autêntica: "Comecei a escrever por acaso, talvez somente para mostrar a um amigo que minha geração era capaz de produzir escritores. Depois caí na armadilha de continuar a escrever, por gosto. Aos doze anos estive a ponto de ser atropelado por uma bicicleta. Um cura que passava me salvou com um grito: “Cuidado!” O ciclista caiu por terra. O cura, sem parar, me disse: “Viu o poder da palavra?” Nesse dia eu soube.”
Nota: os negrito de que fala a Betty perderam-se na transcrição para o mail, presumo eu.
Aconselhável para quem está no meio jornalistico e para quem gosta de estar informado.
Afixado por: jornal torre do selo em maio 2, 2004 10:33 PM